Case - Grande Desafio Brasil X URSS

O maior jogo da história

 

Se hoje o nosso voleibol coleciona medalhas de ouro, é preciso lembrar que esse sonho, que começara em 1981, no Campeonato Sul-Americano Feminino de Santo André, teve seu ponto culminante naquela noite de chuva em pleno Maracanã. O vôlei brasileiro vivia seu momento de transição para o profissionalismo
sob a liderança do Carlos Arthur Nuzman, à época presidente da Confederação Brasileira de Voleibol
(CBV). Bernard, Montanaro, Xandó, William, Renan, Bernardinho e companhia já começavam a sentir o
gosto de ser ídolos. Fora das quadras, José Estevão Cocco, Luciano do Valle e José Francisco Leal, o
Quico, por meio da empresa PromoAção, cuidavam do marketing da CBV, dando os passos pioneiros do
que se conhece hoje por marketing esportivo.
 
Rio de Janeiro, 26 de julho de 1983. Naquela noite chuvosa de terça-feira, o Estádio Mario Filho, o templo do futebol
Maracanã, abriu seus portões para todas as torcidas. No gramado, em vez de traves, uma quadra de voleibol montada
no grande círculo. Em vez do clássico Fla X Flu, o Grande Desafio Brasil X URSS. Nas arquibancadas, nas cadeiras
numeradas e na geral, um público recorde de 95.887 pessoas. Até então, o maior número de pessoas reunidas pelo
chamado esporte amador tinha sido de 90 mil espectadores, que assistiram à abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio
em 1964, aliás, ano em que o vôlei de quadra estreou nessa competição.
 
Depois do Mundialito e do Mundial, tira-teima no Maracanã
 
Em novembro de 1982, a Argentina sediou o Campeonato Mundial de Vôlei, com a participação das melhores seleções do mundo. Para aproveitar a passagem das grandes estrelas internacionais pela América do Sul, a CBV e a PromoAção
realizaram, os Mundialitos, masculino e feminino, respectivamente no Maracanãzinho e no Ibirapuera. A seleção
brasileira masculina foi campeã derrotando a ex-União Soviética, que detinha, na época, a hegemonia do voleibol
mundial. Depois, no Mundial da Argentina, os soviéticos venceram o Brasil e sagraram-se campeões. Ficou faltando o
jogo tira-teima.
 
A caminho do Mundial da Argentina, logo após o Mundialito masculino, a partir de uma observação do então técnico
soviético Platonov, Luciano do Valle e Carlos Nuzman começaram a imaginar até onde poderia chegar a popularidade
do vôlei e concluíram que lotar o Maracanã seria um marco insuperável. Depois da final entre Brasil e URSS, o sonho
começou a se concretizar. Os soviéticos ficaram entusiasmados com a possibilidade de jogar diante de um público tão
grande. Além disso, Platonov, que costumava escolher a dedo seus adversários, reconhecia no Brasil o único adversário
capaz de ameaçar o URSS nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984. Depois, os soviéticos não participaram da
competição, em resposta ao boicote dos EUA ao Jogos de Moscou, em 1980.
 
A grande sacada no templo do futebol
 
José Cocco foi o responsável pelo planejamento do Grande Desafio Brasil X URSS. Inicialmente, o fogo seria realizado no dia 19 de julho. Porém, a chuva, que não costumava cair no inverno carioca, obrigou os organizadores a transferir a
partida para o dia 26. Pela segunda vez, um verdadeiro exército de 200 carpinteiros, marceneiros, eletricistas,
carregadores, liderados por Mário Marcos Girello, o Maraco, e apoiados por caminhões e até helicópteros, invadiram,
na noite de domingo, o templo do futebol.
 
A missão: montar no gramado do maior estádio  do mundo o cenário daquela que se tornou a mais concorrida
competição da história do esporte amador em todos os tempos. Em pouco mais de 24 horas, estava armada a quadra
em material sintético cor de laranja sobre um tablado de 1.500 metros quadrados. Como estava proibido esburacar o
sagrado gramado, durante semanas, os engenheiros da empresa Rohr desenvolveram sistemas de encaixes para montar a quadra e as hastes da rede.
 
Clima de clássico em plena noite de terça chuvosa
 
Aos poucos, o público foi chegando. O clima típico de um clássico de domingo à tarde contrastava com o fato de ser
uma noite de terça com ameaça de chuva. Mais de 95 mil torcedores brasileiros estavam ali para assistir ao espetáculo
das duas mais poderosas seleções de vôlei do planeta. Era a noite do grande tira-teima. A Rede Record com narração de Luciano do Valle, comentários de Paulo Russo e reportagens de Juarez Soares e Eli Coimbra, iniciou a transmissão ao
vivo para todo o Brasil. O mundo conheceu o nosso voleibol campeão pela rede americana ABC. Os patrocinadores
foram: laboratórios Dorsay, Rainha, Marlboro, Volkswagen e Banco Econômico.
 
Menos de dois minutos de jogo. A chuva voltou a cair forte sobre o Rio de Janeiro. O jogo foi interrompido. A solução veio na forma de carpetes estendidos sobre a quadra para evitar que os jogadores escorregassem. No placar, as letras
luminosas anunciavam: em respeito ao público, os jogadores do Brasil e da União Soviética decidiram jogar até debaixo de chuva. Viagens ao fundo do mar, jornada nas estrelas, velocidade, força, malícia, improviso, criatividade ... Assim, o
Brasil venceu os campeões mundiais por 3 X 1. Assim, a televisão mostrou ao mundo o nascimento dos nossos
semideuses do vôlei. Assim, o marketing esportivo impulsionou a modalidade rumo ao segundo posto na preferência
do público, quebrando o monopólio do futebol.
 
“Todo mundo fala que gosto de desafios, do meu jeito ousado de fazer as coisas. Tenho uma alegria muito grande pelas pessoas terem acreditado nesses meus projetos, nessas minhas ideias. Eu quero dar um destaque grande ao Cocco,
Luciano, ao Quico e ao Bruno Caloi também. Eles acreditaram no voleibol quando ele não era o que é hoje; quando
ainda não era campeão olímpico; quando ele não era sequer medalhista olímpico; quando não tinha conquistado
nenhum título mundial.“ - Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB