Case - Vôlei Brasileiro

O marketing esportivo de J.Cocco entra em quadra e o Brasil se apaixona pelo voleibol
 
O Campeonato Sul-americano de Santo André, em 1981, foi um grande marco para o voleibol que, até
então, era praticamente desconhecido, com poucas pessoas indo aos ginásios. A final, contra a imbatível
seleção peruana, com transmissão ao vivo pela Rede Globo, durante o programa Esporte Espetacular, às
16 horas de um sábado, transformou o ginásio Pedro Dell´Antonia num verdadeiro caldeirão, com
milhares de pessoas do lado de fora, pois 4,8 mil pessoas lotavam as arquibancadas e todos os espaços
possíveis para testemunhar aquele momento histórico, da primeira sacada para o “boom” do voleibol
brasileiro.
 
"Aquela final foi um jogo histórico. A emoção foi muito grande não somente pelo resultado, mas pelas circunstâncias do jogo, uma disputa com muita catimba, muito brigado em virtude da rivalidade entre Brasil e Peru, nós não vencíamos
as peruanas há onze anos. Foi um momento importante para o voleibol, foi qunado as portas da televisão se abriram
para a modalidade”, lembra Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro.
 
Com garantia de visibilidade na mídia, tornou-se viável a comercialização de placas de quadra
 
Nesse sul-americano feminino os patrocinadores foram: Rainha, Topper, Atlântica-Boavista Seguros, Guaraná
Antarctica, Vodka Smirnoff, Curt, Colégio Singular, Diário do Grande ABC e Luminárias Look. O Pampas Hotel e o
Colégio Singular colocaram também faixas nos muros das arquibancadas. Além das seis placas de quadra, quatro da
Rainha e duas da Topper, a Alpargatas ofereceu o Troféu Rainha para a grande campeã.
 
"O grande crescimento do voleibol brasileiro começou no início dos anos 1980 com esse campeonato em Santo André. O Diário do Grande ABC deu duas páginas todos os dias. Isso foi muito significativo se considerarmos que até aqueles dias a imprensa esportiva só falava de futebol", afirma o jornalista Luís Carlos Sperandio, um dos pioneiros na
cobertura de jogos de voleibol e ex-assessor de imprensa do Clube Atlético Pirelli.
 
O profissionalismo na quadra
 
Sperandio lembra que, até aquele campeonato, não havia muita disciplina no acesso às quadras. Qualquer um entrava e
saia. Com as transmissões da televisão, as placas de merchandising não podiam mais ficar escondidas atrás das pessoas.
"O pessoal da Novociclo começou a cuidar disso também, os fotógrafos e jornalistas passaram a ter um lugar certo para se posicionar." Com o ginásio lotado, foi preciso colocar pessoas controlando as entradas e saídas da quadra.
 
Depois dos Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980, Leonardo Gryner foi para o Departamento de Esportes da TV
Globo, comandado pelo Ciro José. "Nessa final de Santo André, eu estava na estação fazendo os cortes e colocando o
jogo no ar. Eu lembro que foi um jogo dramático com uma enorme pressão da torcida sobre as jogadoras. O voleibol
começava a atrair o torcedor de seleção. Os resultados obtidos pelo Brasil passaram a empolgar o público e a Globo
tinha a orientação de, fora o futebol, fazer os jogos do Brasil das outras modalidades".
 
O público começou a olhar o voleibol com outros olhos
 
Para nós foi uma grande emoção transmitir os jogos daquele sul-americano feminino. Bons jogos, muita repercussão,
ginásio lotado, o público começou a olhar o voleibol com outros olhos. A partir daquele momento, a modalidade
começou a crescer, despertando o interesse de toda a mídia", avalia Orlando Duarte, que dirigia o Departamento de
Esportes da TV Cultura, que retransmitiu os jogos.
 
"Depois desse campeonato, Santo André ficou muito mais entusiasmada pelo voleibol. Foi na minha gestão que nós
trouxemos a Vera Mossa para jogar pela Pirelli", conta o professor De Francisco, na época secretário de Esportes de
Santo André.
 
O Brasil já tinha vencido uma partida, quando, na quinta-feira, Jacqueline e Isabel foram cortadas da seleção que
disputava o sul-americano. O time prosseguiu com dez jogadoras. "Ninguém acreditava. Como sem Isabel e sem
Jacqueline? Elas eram do juvenil e tinham muito carisma. A Isabel sacava muito bem. A Jacqueline tinha todas as
manhas do vôlei de praia. Porém, a Célia, com 28 anos, era muito mais experiente, era a única do time que tinha
conquistado o sul-americano, em 1969, em cima do Peru. Na época, foi um escândalo. A gente cruzava com as peruanas no hotel e elas perguntavam como nós iríamos passar para a fase final sem a Isabel e a Jacqueline?", relata a campeã
sul-americana Silvia Montanarini. 
 
"Está de parabéns o esporte amador por realizar um espetáculo dessa natureza, levando muita emoção para o público
brasileiro, que acompanha a Globo, com exclusividade, de norte a sul, leste a oeste. São grandes promoções como esta,
fazendo com que o torcedor seja, realmente, um torcedor olímpico, que entenda de vôlei, que entenda de basquete,
ginástica olímpica, natação, atletismo, amanhã tem automobilismo, futebol, enfim tudo que é esporte", destacou
Luciano do Valle, durante o intervalo do terceiro para o quarto set, quando a partida estava 2 X 1 para o Brasil. Mesmo
com cerca de duas horas de jogo, o repórter Roberto Cabrini informava que ainda havia milhares de pessoas do lado de fora do Pedro Dell´Antonia. "E não adianta dizer ao público que tem transmissão direta pela televisão. Aí está a
demonstração de que a televisão não tira público, leva público para os ginásios", concluiu Luciano do Valle.
 
José Cocco, nesse momento, era diretor-superintendente da Novociclo de Propaganda, que planejou, dirigiu e
operacionalizou todo esse sucesso. Logo após esse evento, montou juntamente com Luciano do Valle e José Francisco
Leal - Quico, a primeira empresa de marketing esportivo voltada para criar e montar eventos esportivos para a
televisão, a PromoAção. Esta empresa com enorme sucesso criou o Show do Esporte, que teve estréia na Rede Record e, posteriormente, se transferiu para a Rede Band.
 
Veja no vídeo abaixo a emocionante partida entre a seleção brasileira contra a peruana em 1981 (crédito: Robson
Ferrera).